quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Avanços e Recuos

 Há um certo tempo que percebi um movimento como as ondas do mar numa praia (será influência da canção de Lulu Santos e Nelson Motta?). Assim: aprendi que houve um período de grande liberação dos costumes, especialmente na Europa, e alguma coisa nos Estados Unidos, no início do século XX. Grossos setores da elite se permitiram práticas de todo tipo de liberdade, desde as mais lascivas, até as sociais, passando por falsários, escroques, falsificadores, assassinos e toda a sorte de gente investida de boas e muito más intençẽs. Esse clima abriu espaço para pessoas ousarem dar asas a desejos antes inaceitáveis: homens e mulheres "sairam do armário" na expressão de hoje. Sentiram a segurança que antes lhes era negada. Mas aí, veio a Primeira Grande Guerra e tudo foi por água abaixo. Poetas, artistas, intelectuais foram levados às trincheiras, onde lá pereceram, quase que invariavelmente, inutilmente.

Então, veio a República de Weimar, na Alemanha. No resto da Europa e Estados Unidos, se segue uma economia de reconstrução. Como li num artigo de Joelmir Betting, parece ser esta a condição ideal de acumulação de capital. Assim, um período de aparente prosperidade se instalou. A tal da República de Weimar, pelo que vi, parece que se tratava da aplicação de uma ideologia totalmente liberal. Como disse um historiador numa entrevista: "como se isso bastasse para instaurar um verdadeiro liberalismo". O clima que se seguiu é muito bem ilustrado na série premiada Babylon Berlim, onde testemunhamos um clima, não somente de uma aparente liberdade, mas toda sorte de práticas tidas como 'liberais', desde pura criação artística inovadora, como todo o tipo de corrupção e perversão.

Aí vem a quebra da Bolsa em Nova Iorque. O mundo entra em uma das maiores depressões econômicas da história. E vem o nazi-fascismo, com tudo aquilo que a gente sabe (a há tanto para ainda saber!).

Ao fim da II Guerra Mundial, vem um período que eu assisti em parte. Sendo da geração boomer, vivi uma adolescência enfrentando a 'retrógada' mentalidade da geração anterior. Faço parte daqueles que lutaram pela, agora sei, re-liberação. Uma componente introduziu complexidade: além dessa, impôs-se a luta pela redemocratização. E para muitos de nós, eu inclusive, essa redemocratização confundia-se com uma 'revolução' aos moldes marxistas-leninistas (sim, sou um rapaz latino-americano). 

E vem a "Redentora" na definição de Sergio Porto, a "Revolução" na visão dos militares golpistas, o "Golpe" na definição dos estudantes e intelectuais. Duas antífrases, uma no sentido sarcástico, outra, no irônico e uma analogia. Figuras de linguagem à parte, o fato, é que a ela se seguiu um forte movimento de "defender a moral e os bons costumes", o que, na prática significava o retorno, ou impedimento, do tal "liberalismo" visto no início do século XX e depois de Primeira Grande Guerra.

Então eu me perguntei: será que a humanidade vive esse 'avançar' e retroagir o tempo todo? Terá sido sempre assim? 

O livro Darkness Ages da jornalista inglesa Catherine Nixey joga uma luz. Ali, aprendi que a prática de invasão de domicílios, queima coletiva de livros, prisões arbitrárias e violentas, culminando com a morte por linchamento e na fogueira de gente sem qualquer direito de defesa, tem início no século VI e VII, quando hordas de "monjes" cristãos, em ações que hoje lembram as do estado islâmico e talibã no Afeganistão, invadem vilas e cidades para a imposição da "verdadeira" religião, a católica. Um surto violento de "moralização" da sociedade que, como sabemos, duraram mais de mil anos, e ainda hoje é reclamada por círculos e governos por aí, espalhados no mundo. Eles são a expressão da reação do povo diante da total degradação moral que o Império Romano viveu em seus últimos dias. "Dias" é uma forma de dizer, pois arrastou-se por alguns séculos. Orgias, estupros impunes, homossexualismo, transexualismo, enfim, alguns deles traços do que chamamos progressão liberal que tomou tal proporção que a "nova" religião, que impunha o fim de tudo aquilo, para se ganhar o reino do paraíso, onde sofrimento, injustiça, fome, doenças e dor não mais existiriam. É a única religião que se propunha a "salvar" quem "bem" se comportasse. 

O que hoje chamamos avanços na compreensão de gênero, se misturavam ao que, hoje, também chamamos total libertinagem onde justas reivindicações de compreensão de condição humana se mesclavam com práticas consideradas, nos dias de hoje, condenáveis e repulsivas. Tudo isso provocou a reação extramente violenta e desproporcional dos "novos" clérigos, os monges cristãos.

Porém, na esteira desta "reação", veio também a intolerância e, jogado no mesmo caldo da corrupção, o saber e conhecimento clássico foi destruído, aniquilado, apagado para sempre. Segundo a autora Catherine, 99,9% do conhecimento do mundo clássico foi simplesmente destruído. Não fosse a ação no mundo árabe, do surgimento do Islã, que preservou o que se tinha do mundo clássico naquelas bandas, não saberíamos quase nada dos tempos pré-cristãos na Europa. Não teríamos qualquer informação sobre Aristóteles, por exemplo. 

Então, o que assistimos nos tempos modernos, quando vem isso que parece "uma onda do mar na praia", essas idas e vindas dos conceitos morais e repressão, parecem que são réplicas do que vivemos nos inícios dos tempos católicos. Parece que estamos presos em uma redoma, com a água indo para lá e para cá, batendo nas paredes sem ir a lugar nenhum. Somente as técnicas de avanço e recuo se aprimoram. Os instrumentos são refinados. A tecnologia melhora. Mas não saimos do lugar! 

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