segunda-feira, 11 de maio de 2026

Ao Camarada Gorbachev

Supremo Camarada Michail Gorbachev, 

Assista à série da HBO, Chernobyl. É uma recapitulação romanceada baseada nos depoimentos de Valery Legasov, um personagem real, cujo depoimento gravado em segredo, e as fitas distribuidas clandestinamente entre os cientistas soviéticos, descreve com precisão o que se passou no fatídico acidente.

Camarada Michail, tendo sido o último Secretário Geral do Partido Comunista Soviético, o camarada declarou que estimava que o acidente de Chernobyl tinha sido a real causa do colapso da União Soviética. 

Isso posto, pois, vindo de sua parte, quem há de discordar, não é mesmo? Portanto, parto daí para estender essa premissa, e com sua permissão, acrescentarei o que eu, humildemente, pude compreender desse verdadeiro turbilhão na política européia e global que acometeu os últimos anos do segundo milênio.

É claro que me coloco essa liberdade sabendo que, pelo que podemos inferir dos capítulos da série - e de outras fontes também -, essa minha ousadia me custaria caro se ainda vivêssemos os anos que precederam o tal colapso em seu país. Mas isso é passado, e, não fugindo à minha natureza, vou meter o bedelho (se me perdoa a expressão chula), com a plena consciência que eu não sobreviveria em sua bela ex-USSR! 

Que as consequências do acidente de Chernobyl foram devastadoras para as relações internacionais da União Soviética, e para a deterorização do moral interno, não há qualquer dúvida. Eu estava lá, na Europa, quando a coisa aconteceu. Morávamos, eu, minha mulher e meu filho de quatro anos de idade, em Paris. Uma hecatombe humanitária! A Polônia viveu a fome, já que praticamente todos os alimentos foram contaminados. Na Alemanha proibiu-se de consumir uma série de hortigrangeiros, de leite e seus derivados. 

Uma reporter da televisão francesa se postou na fronteira, sua metade direita em território francês, a esquerda em território alemão. Dizia ela: se passava um ramo de alface para sua mão direita, ela poderia comê-lo, se passasse para a mão esquerda, não poderia! Essa foi a situação na semana que se seguiu àquele fatídico 26 de abril de 1986.

Oficialmente, a França reportou que a nuvem radioativa que provinha de Chernobyl não tinha passado por seu território, desviando-se para o norte, em direção ao Reino Unido. Vivíamos o "socialismo" de Miterrand, na época. Eu sei que vocês, da esquerda "raiz", não gostam, mas é inevitável comparar a mentalidade de ambos: os socialistas e os comunistas. Digo isso como alguém que agora está de fora da coisa, alguém que não vê as nuances que para vocês são diferenças fundamentais. Paciência.

Eis que, semanas depois, descobrimos que a nuvem desviou-se sim, mas depois de nos cobrir por, pelo menos, 24 horas! À comoção que se seguiu, fez-se criar uma instituição privada para medir essas coisas, já que os órgãos oficiais deixaram de ser confiáveis. 

Mas a França é um país democrático (ou finge ser, na visão "crítica" do revolucionário), e criticar, debater e criar instuições independentes é uma prerrogrativa da população.

Mas, não é curioso como o comportamento oficial se parece? Lá, na sua antiga USSR, a diferença é que a população não tem esse direito de criticar, de criar instituições independentes, diante da patente contradição entre o que acontece e o que se declara. Em verdade, pode-se dizer que seus dirigentes e sua augusta figura também não admitiram a gravidade do acidente. E acho mesmo que até hoje, quem ainda vive não dá o braço a torcer.

Vocês, lá, tinham a KGB. Instituição derivada de outras, criadas já na instalação do regime bolchevique, mostrou-se um monstro que impedia, engessava e sufocava qualquer manifestação que mostrasse independência, fosse ela anti-regime, ou não. 

Chegou-se ao ponto de se censurar a constatação de que havia uma falha crucial nos reatores nucleares RBMK em funcionamento da USSR. A KGB se arvorava o direito de negar o que a própria natureza denunciava. 

Isso não parece o que Galileu Galilei viveu em sua confrontação com a Escolástica da Igreja Católica no século XVI? Como disse Legasov, em depoimento num julgamento de cartas marcadas, cometendo a "heresia" (ah!, sempre tem alguém para cometer heresias) de denunciar a farsa e profetizar: "a cada mentira, gera-se uma dívida com a verdade, que um dia virá cobrar seu preço".

Pois bem, camarada Gorbachev: o acidente em Chernobyl não teria acontecido se não fosse a KGB. Pois, se a constatação científica da falha do projeto não tivesse sido censurada, se seus autores não tivessem sido cassados (e caçados), haveria condições de se discutir soluções para as tais falhas. O acidente teria sido evitado.

Estendendo seu raciocínio, camarada Gorbachev, a KGB contribuiu significantemente para o colapso da União Soviética, pois, se não existisse, ou tivesse outra natureza, Chernobyl seria uma simpática cidade ucraniana (nem mesmo bombardeada pelo neo-bolchevique Putin, nos dias de hoje), com a curiosidade de um complexo nuclear em atividade em suas imediações.

Mas, a KGB foi um órgão derivado de instituições necessárias à sobrevivência da Revolução de 1917! As radicalizações dos primeiros dias, deram lugar ao processo de ocupação por burocratas, uns paranóicos, outros oportunistas, nas hostes dessa instituição. Das sinceras preocupações com as atividades anti-revolucionárias, de origens internas e externas, o que se viu, foi a completa burocratização e desumanização das atividades desta agência, transformando-a em um braço armado de repressão velada e violenta contra a própria população do país.

Não podia ser diferente, camarada Gorbachev. Pois todo o processo de instalação de aparatos do estado passa pelo mesmo caminho. A dinâmica social seleciona os elementos que naturalmente vão se instalar nas mais diversas instâncias de poder, oportunistas com o simples intuito de nelas se fixarem e garantirem que lá ficarão pela eternidade. A humanidade treina isso há, pelo menos, os mil anos da Idade Média, a alta, e a baixa. A Igreja Católica incumbiu-se de nos treinar.

Funcionam como parasitas. Não é que eu queira ofender! Não os chamo parasitas como insulto e sim pelo fato que, matematicamente, a coisa funciona do mesmo jeito. A parasita aproveita-se das brechas do hospedeiro que ele abre para sua sobrevivência, ou preservação. Vermes se escondem no interior de alimentos, formigas substituem a rainha do formigueiro hospedeiro pela sua própria, que passa a se reproduzir e ser alimentada pelas hospedeiras. Fêmeas de pássaros parasitas deixam seus ovos nos ninhos do hospedeiro, cujas pais os chocam como se fossem seus.

Já os oportunistas humanos se servem de discursos que agradam o poder para se instalar nas mais diversas instâncias da burocracia. Ali se instalam para assegurarem regalias dos cargos, e iniciam o processo de se perpetuarem neles, perseguindo implacavelmente quem, de boa fé, desenvolve trabalhos efetivamente proveitosos para o sistema, gente que pode denunciar os seus desmandos, quem é honesto e gostaria de produzir bons trabalhos. 

Foi exatamente assim que aconteceu na KGB e outras instâncias de poder na União Soviética. Não vá pensar que é diferente nos países ditos "capitalistas", pois é exatamente o que acontece em seus aparatos de Estado também. Mas do lado de cá, ainda se acredita no sistema liberal e na liberdade de expressão. Porém, tudo indica que, aqui também, a vaca está indo para o brejo.

Pois é, camarada! Aquilo que o camarada acreditava ser novo, a Revolução, na verdade, só trouxe os mesmos processos de engessamento pelo poder em cores novas, em justificativas novas. Contudo, infelizmente, a dinâmica social não passou de uma aventura nostálgica dos tempos anteriores ao Iluminismo. Burocratas no lugar de bispos, agentes de repressão no lugar de inquisidores. Trocam-se os nomes, mas suas práticas visam o mesmo objetivo: parasitar.

As palavras de ordem revolucionárias, do movimento operário, da libertação da exploração do homem pelo homem, não passam de cascas novas de conteúdos velhos, rançosos e podres. É triste, mas é a verdade.

E então, caro camarada, sendo a KGB o subproduto de instituições necessárias à sobrevivência da Revolução, pode-se estender seu raciocínio de que a Revolução de Outubro foi uma das principais causas do colapso da USSR. Que paradoxo, não é?! A própria causa que deu origem à União Soviética termina por ser a provedora de seu colapso!

Folgo em saber que (cancelamentos à parte) posso lhe dirigir estas palavras sem ter por certo que algo de muito ruim vai me acontecer. Seja por via direta - prisão, isolamento, julgamento forjado e execução -, seja por via indireta - atentado, morte por razões desconhecidas, 'ataques cardíacos', etc. A União Soviética não existe mais. E sem ela, também, KGBs e STASIs da vida não mais germinam por aqui.

Nossos problemas agora são outros, pois há outros aparatos por aí, funcionando sob condições semelhantes. 

Passar bem, Camarada. Tente aproveitar um pouco da liberdade que lhe resta. E convença-se que suas idéias de um "socialismo humano" é um projeto que não vinga. Talvez, lá na frente, quando, e se superarmos os percalços do capitalismo, e que este mesmo termine por morrer de velho, aí, talvez nos fazendo companhia no céu, possamos assistir a alguma coisa que melhore a vida de nós pobres seres humanos. Ou nossa derrocada final.

 Saudações revolucionárias,

J.L. 

Nenhum comentário: